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21 junho, 2010

Miedo...



(Imagem by Marta Bevacqua)

“Se bastasse falar do medo para superá-lo, já estaríamos livres deste sentimento há muito tempo. É impossível viver sem ele. Podemos dizer que o medo faz parte daquelas razões do coração desconhecidas da razão que rege os pensamentos” (Marcia Tiburi, A forma mais comum do medo é o medo do medo).

Estava conversando com uma amiga (muito querida por sinal), e o tema era medo! Achei que o foco fosse romance, claro, romance também, mas muito mais medo! Já reparou como sentimos medo de quase tudo? Medo de gostar de alguém, medo de não gostar de alguém, medo de não gostar o suficiente, ou de gostar demais, medo de perder a amizade, medo de contar que gostamos e medo dele nunca saber disso... isso só falando em gostar...

Sem contar os medos que sentimos em casa, na rua, sozinhos deitados no quarto, no banho, no supermercado, no trabalho... medo de não dar certo, medo de dar certo, medo errar, medo de acertar e não saber o que fazer, medo de não dar conta, medo dos desafios, medo das novidades que por mais que nos movimentem nos deixam inseguros... Afinal, estamos diante do desconhecido, ou muitas vezes do “não conhecido muito bem” e honestamente acho que nos acostumamos com a segurança do saber, do conhecer e no meu caso (que também é o caso de todas as pessoas que insistem em prever o futuro) imaginar o resultado!

Sabe que além da Martha de quem nem dá pra perceber quase que gosto muito, tenho lido alguns textos da Marcia Tiburi e gostado muito também. Ela escreveu um artigo sobre o medo intitulado “A forma mais comum do medo é o medo do medo” e só posso concordar que é!

Antes de termos medo, temos medo de sentir medo!!! E não sei como nunca reparei nisso! A srta medrosa! Sempre duvidando de tudo, sempre pensando nas piores possibilidades (o que na minha teoria me deixa pronta pra parte ruim e pra curtir os bons resultados ‘inesperados’, se eles existirem claro!), sempre com medo! Ah o inesperado! Esse me apavora! Benditos imprevistos! Me tiram o chão, que já parece querer fugir dos meus pés naturalmente e sem muito esforço.

E enquanto estávamos conversando percebi o quanto é fácil encorajar os outros e o quanto o medo do outro nos parece mais simples de resolver. Impressionante né!? Já reparou quantos amigos encorajamos o tempo todo, mas lá no fundinho pensamos ‘será que eu teria coragem?’, ou ‘será que vai dar certo?’. Mas lá no fundo de novo (nem tão no fundo assim na verdade) acreditamos sinceramente que eles são capazes! E que pode dar certo! E ainda bem que o movimento é esse, porque mil outras vezes somos nós os encorajados a arriscar! E no fim... do chão ninguém passa.

E o pior é não consegui pensar em nada pra amenizar esse medo todo que não seja conviver com ele, enfrentá-lo (às vezes e quando nos parecer - ainda que ilusóriamente e encorajados pelos nossos amigos - seguro [rs]) e ter paciência! E aí a Marcia tem razão novamente ao nos alertar que...

“Podemos odiar o medo, querer extirpá-lo de nossas vidas, mas nem sempre o fazemos pela via mais simples, porque é muito difícil combater um sentimento. Melhor, quando se trata de sentimentos, aprender a conviver com eles. Um sentimento cresce na exata proporção em que o negamos. Torna-se mais leve quando o aceitamos. É a única chance de que nos deixe em paz”. (Marcia Tiburi, A forma mais comum do medo é o medo do medo).
 
Pra nos ajudar a pirar...

Miedo
Lenine e Julieta Venegas
Composição: Pedro Guerra/Lenine/Robney Assis

"Medo de olhar no fundo
Medo de dobrar a esquina
Medo de ficar no escuro
De passar em branco, de cruzar a linha
Medo de se achar sozinho
De perder a rédea, a pose e o prumo
Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo"

20 junho, 2010

Desejar o Desejo



Desejar o Desejo [1]

Por Marcia Tiburi

Costumamos querer sem saber o que queremos, costumamos falar de desejo sem saber o que ele significa. Fala-se tanto em desejo que ficamos confusos com seu sentido. Arthur Schopenhauer, no século XIX, pensava que o desejo era o motor do sofrimento. Desejar resultava em ser infeliz. O filósofo tinha certa razão, pois o desejo não vem com o equilíbrio como brinde. E a pergunta, a princípio ingênua, “o desejo é afinal bom ou ruim?” não nos abandona.

Apesar da relação entre desejo e excesso, à sensação de aventura impressionante que uma possível “descoberta” do desejo nos convida, nos tornamos temerosos do desejo. Todavia, permanecemos desejando. Se não estamos às voltas à procura de nosso desejo por conta própria, sempre há quem esteja por perto dizendo que temos que encontra-lo e que isto será uma revolução pessoal.

Há quem fale da diferença entre querer e desejar, uns afirmando que o querer é racional e consciente e o desejo é irracional e inconsciente. É uma boa distinção. De qualquer modo, mesmo confusos, sabemos que o desejo sempre nos põe diante de um abismo que apenas com paciência e atenção somos capazes de atravessar em nosso dia a dia. Este abismo é o outro. É visando-o que descobrimos o que ele realmente é.

Estamos orientados a sempre desejar alguma coisa em relação ao outro, seja ele algo, uma pessoa, a sociedade ou o futuro. Quando desejamos o desejo, a vida vai bem. Nos movemos atentos à beleza, à tragédia, ao sublime da existência e tudo pode ser interessante e motivo de alegria. Baruch Spinoza, no século XVII, falava do desejo como uma espécie de impulso para a vida. A sua melhor qualidade era a produção da alegria como afeto saudável que nos fazia encontrar o outro como dádiva, luz, maravilha.

Para além da felicidade que advém do mero desejar o desejo, desejamos algo diferente dele. Às vezes desejamos as coisas e, como não conquistamos tudo o que queremos, sofremos. Quando desejamos pessoas podemos sofrer mais ainda, já que ao desejar outra pessoa que deseja como nós, nos deparamos com o obstáculo do seu próprio desejo que pode ser avesso ao nosso e nos rejeitar.

Muitas vezes, mesmo desejando alguém e tendo a sorte de uma amizade ou um amor correspondido pomos tudo a perder. Se não desejamos o que o outro é, acabamos por nossa própria conta que ele deveria ser. Mas quem teria este direito de desejar por nós?

Como alguém deveria ser

Não se trata apenas de desejar algo que o outro “deveria” nos dar e chorar porque não fomos contemplados, ou assumir com dignidade a frustração, mas de desejar o modo como alguém “deveria ser”. É como se o outro não fosse o que é, devendo sempre ser diferente para agradar o gosto do seu crítico de plantão. Tornamo-nos críticos exímios socialmente na arte de falar mal, de apontar defeitos, de querer, afinal, que o outro seja como queremos que ele seja. Nunca o que ele é. E se nos casamos com este outro, ou nos tornamos pais, ou precisamos conviver no trabalho?

Em casa, no trabalho, na escola, na empresa, esta postura carrega um gesto de desamor que, em graus variados, pode chegar ao ódio e à intolerância que são o extremo da falta de capacidade de dialogar ou de, simplesmente, deixar que o outro seja o que ele é, a seu modo. Mas e como “eu” deveria ser? Será que esta pergunta teria consistência?

Muitas vezes exigimos das pessoas atitudes e comportamentos que nós mesmos não temos, mas que supomos nossa característica mais essencial. Perguntados, entretanto, nem sempre podemos afirmar com precisão onde, como e quando tais características se manifestam em nós. Qual será a função desta exigência? Se critico o outro por sua preguiça é por que, ao contrário, eu sou trabalhador e esforçado? Se o critico por ignorância, eu sou sábio? Se o critico em sua antipatia, sou eu o simpático? Se o critico por falta de ética, eu sou ético? Falando do outro eu sempre me convenço de que sou melhor do que ele ou, antes, por me considerar perfeito já afirmo minha competência na crítica. Mas, sobretudo, acoberto a chance de que eu esteja na berlinda, sendo o alvo.

Nossos comportamentos geram valores. Não são apenas o fruto de valores preexistentes, mas nós mesmos construímos as bases a partir das quais agimos em nosso futuro e interferimos, sobretudo, no modo de ser de outras pessoas. Este modo de ser leva à decisões e ações mais ou menos livres que moldam a totalidade da vida.

A liberdade do outro é o começo da minha

Nossa sociedade costuma demonstrar seus valores cultuando-os. Este culto mostra duas coisas: que temos uma imensa capacidade de amar símbolos, pessoas ou coisas, e que, justamente por isso, também somos capazes de muita ilusão.

Quando desejamos ilusões não atingimos a profundidade do nosso desejo. Não devemos apenas pensar nas falsas necessidades que fazem operar nosso desejo, as inventadas pela sociedade em seu modo de produção atual. Devemos pensar nos valores que impomos a quem não é como nós somos e que compõem nosso desejo. A atenção crítica a si mesmo e ao outro precisa de óculos cuja lente seja a liberdade de ser que é direito de cada um. A liberdade do outro é onde inicia a minha.

[1] Publicado em Vida Simples em 2008.