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06 agosto, 2010

Defeitos



(Image by Ballyscanlon)

'Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso.
Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro'.

Clarice Lispector

E o pior (ou melhor, ou tanto faz) é que até os defeitos e talvez em grande parte eles, são responsáveis por ser quem somos. Essa semana andei pensando sobre isso: os defeitos. Os meus, os seus, os nossos...

E num primeiro momento não me pareceu muito confortável sabe? Olhar para eles assim nus e crus! Mas o curioso é que de alguma maneira estranha nós os conhecemos (quase) todos. Disfarçamos, arrumamos, tentamos mudar, camuflar, seja lá o verbo que for... Mas o fato é que eles são parte de nós também. E talvez o maior erro seja tentar mudar isso.

Fiquei pensando nas ‘um milhão de vezes’ em que desejamos internamente não ser mais assim ou assado, nunca mais fazer isso ou aquilo, nem dizer, nem pensar, nem querer... E se repararmos isso acontece quase o tempo todo. É no trabalho que deveríamos ser mais objetivas, menos confusas, mais claras, ter menos vergonha de falar em público... Em casa que deveríamos ser menos impacientes, mais calmas, menos emburradas... Na vida em que deveríamos ser mais solidárias, menos egoístas, menos apressadas, menos medrosas, bem menos inseguras...

Quem disse?

O fato é que os defeitos são também parte do que nos mantém inteiros! E talvez conviver com eles não precise ser algo 'sofrível'. Talvez eles sejam partes fundamentais do que quebra-cabeça que nós somos... E se olharmos com cuidado, podemos até tentar trocar de lugar algumas peças às vezes, somos humanos certo? Mas precisamos de todas elas para ser o que somos, seja isso inteiro, metade...

E talvez o maior perigo seja se perder em relação a quem queremos ser e como queremos ser, para como agradaríamos se fossemos...

Não quero com isso dizer que não podemos mudar, melhorar, trabalhar o que não é bacana na gente, o que não nos agrada. Claro que podemos. Mas talvez esse ideal de mudança não deva ser nosso maior objetivo. Já é tão difícil ser quem somos com o pacote todo: o que temos de bom, de alegre, de triste, de complicado, de simples, enfim... Imagina ser tudo isso e ficar tentando não ser algumas coisas também?

09 junho, 2010

Preserve sua natureza



(Image by Tom Merton)

Salve a Mata Atlântica, não polua mares e rios, proteja o ar que a gente respira, não deixe que ipês e plátanos sejam arrancados para dar passagem a viadutos, não pise na grama, não compre nem venda animais silvestres, mas, sobretudo, preserve sua própria natureza.

Se você não nasceu para o terno e gravata, para o ar-condicionado e para reuniões, não seja um executivo, não ambicione ter tanto dinheiro, não pegue a trilha errada porque, lá adiante, vai dar preguiça de retornar e começar tudo de novo.

Se você não se imagina passando o resto da vida ao lado de uma única pessoa, se tem fome de liberdade, se gosta de estar em trânsito e experimentar toda forma de amor, e desconfia que sempre será assim, não importa a idade que tiver, então não case, não siga padrões de comportamento para os quais você suspeita não ter talento.

Se você sente que tem um amor enorme dentro de você e precisa dividir isso com alguém, se há em você generosidade suficiente para dedicar a maior parte do seu tempo a ensinar, brincar e criar uma pessoa, então não deixe de ter um filho, mesmo que não tenha com quem concebê-lo, mesmo que pense que já perdeu esse trem: perdeu nada, adote uma criança.

Se você não suporta mais ser governado, se não tem paciência para esperar as coisas acontecerem, se seu voto não tem adiantado grande coisa, se sua cabeça está cheia de idéias simples e praticáveis, se você tem o dom da oratória, muitos amigos, um ótimo caráter e acredita que pode mudar o que está aí, filie-se a um partido, apresente suas soluções.

Se você não é capaz de ficar com vários caras num único verão, se não faz questão de sair para a balada todas as noites, se sonha em encontrar um amor de verdade, alguém que a compreenda e seja um parceiro pra sempre, então não force outros relacionamentos, lute pelo seu ideal romântico, não se avexe de estar na contramão.

Não devaste nem polua você mesmo.
 
Martha Medeiros
 
Obs.: Tem muita gente idiota nesse planeta, tentando fazer a gente colocar as nossas poucas certezas e às vezes até as nossas dúvidas à prova! Quem sabe a gente consegue olhar mais pra galera bacana né? Que nos respeita como somos. Pra quem tanto faz se gostamos disso ou daquilo! Pra quem na verdade basta estarmos juntos, dando risada e nos divertindo!!! E é claro, olhar pra nós mesmos!

03 junho, 2010

As piores hipóteses...



(Image by Sot)

Estava lendo essa crônica da Martha que fala justamente sobre as falhas. As nossas falhas, e o quanto elas nos humanizam...

E não pude evitar pensar nas minhas! Ah caramba, são tantas! Já começa por aí! Mania de pensar sempre no pior lado das coisas e nas piores hipóteses!

Já se perguntou por que temos (olha eu querendo socializar a minha falha supondo que seja a sua também!) a tendência maluca de sempre pensar nas piores hipóteses. Sejam elas quais forem, sobre qual assunto for?!

Previsão do tempo, amor, amigos, viagens, faculdade, trabalho! É o tempo que pode piorar mesmo quando o sol está rachando lá fora (mas, vamos combinar que às vezes acertamos mais que a previsão do tempo?!), é aquele trabalho que a gente ralou absurdo pra fazer e tem certeza que não ficou bom, aquele lugar que a gente deixa de ir porque tem certeza que não estará legal, aquele cara super interessante que a gente tem certeza que não vai dar em nada, aquela viagem que embora pareça super interessante... Ah tanta coisa pode dar errado!

Coisa de maluco isso. Talvez não. Prefiro pensar que talvez seja algo “às vezes” inevitável. Bom, no meu caso tenho que admitir que mesmo lutando contra a minha essência sagitariana, controladora, com mania de querer adivinhar desde a previsão do tempo até o que as pessoas nunca sonharam em dizer, a parte controladora tem ganhado. Vários pontos a zero por enquanto. Fico me perguntando em que momento aprendemos que ser assim seria mais seguro?! Ah, claro, quanto menor a imaginação, menor o tombo! Já era!

Digamos que tenho outras falhas... (e como tenho!) Ansiedade, pressa, insegurança, imaginação fértil demais (ok, essa pode ser uma qualidade às vezes, certo?), medo de coisas novas, falo demais (principalmente quando fico nervosa) e sempre fico pensando que se Deus (ou alguém, sei-lá) nos deu o pensamento, nem tudo precisaria ser dito, mas... Acho que talvez o que mais me “pegue” seja essa mania de viver entre a guerra eterna do “tudo sempre pode piorar” versus “do chão não passa”. Não que a metade do meu copo esteja sempre vazia... Claro que às vezes bem aproveito a metade cheia de sorvete, milk shake de ovomaltine, fanta uva, enfim!

Lição de feriado sobre as falhas: além de nos humanizar é o que nos identifica, particulariza, diferencia! Agora se fascina...??? Aí deixo pra pensarmos num momento menos “tudo pode piorar”!

Até porque se todo carnaval tem seu fim... Pra que se preocupar?

Los Hermanos
Composição: Marcelo Camelo

Todo dia um ninguém josé acorda já deitado
Todo dia ainda de pé o zé dorme acordado
Todo dia o dia não quer raiar o sol do dia
Toda trilha é andada com a fé de quem crê no ditado
De que o dia insiste em nascer
Mas o dia insiste em nascer
Pra ver deitar o novo

Toda rosa é rosa porque assim ela é chamada
Toda Bossa é nova e você não liga se é usada
Todo o carnaval tem seu fim
Todo o carnaval tem seu fim
E é o fim, e é o fim

Deixa eu brincar de ser feliz,
Deixa eu pintar o meu nariz

Toda banda tem um tarol, quem sabe eu não toco
Todo samba tem um refrão pra levantar o bloco
Toda escolha é feita por quem acorda já deitado

Toda folha elege um alguém que mora logo ao lado
E pinta o estandarte de azul
E põe suas estrelas no azul
Pra que mudar?

Deixa eu brincar de ser feliz,
Deixa eu pintar o meu nariz