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10 janeiro, 2011

Procurando a coragem...





 "O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem."

João Guimarães Rosa 
 
Se eu vou encontrar, essa é outra história...
Mas posso dizer que procurá-la já é uma grande movimento... 

13 setembro, 2010

Encontrar-se?



(Image by Aaron Black)

Perder-se também é caminho.
Clarice Lispector

Acho que não tinha coisa melhor para aprender nesse 'caminho'. Engraçado que na minha cabeça as coisas só estariam 'certas' quando estivessem no lugar, devidamente organizadas, devidamente etiquetadas, devidamente classificadas de alguma maneira. Se não estivessem calssificadas... ai... havia alguma coisa muito errada que não me deixava nem ao menos tentar vivê-las nessa 'relativa' desordem.

Engraçado que de uma maneira ou de outra eu nunca percebi que eu vivi essas coisas, estando elas organizadas nas minhas gavetas e pastas abstratas malucas ou não. Mas vivi com muito menos intensidade, sentimento e talvez vontade do que se tivesse simplesmente vivido e não procurado entendê-las. É claro que valeu a pena. Todas elas tiveram a sua magia,  o seu significado. Talvez, não teria chegado a essa conclusão se não tivesse enlouquecidamente tentado enquadrar todos os acontecimentos, sentimentos, sonhos que nunca viraram acontecimentos e até mesmo os sonhos que se realizaram em algum lugar.

Engraçado perceber como hoje, de repente, (ía escrever sabe Deus, mas pôxa vida, acho que ele acabava se perdendo junto comigo nessa minha confusão maluca), as coisas simplificaram. Engraçado que a dor continua dor, continua a doer como sempre doeu, com a diferença que tenho me permitido sofrer se é que é isso que ela me provoca, ao invés de tentar entendê-la. A vontade continua a ser vontade, agora muito mais livre pra existir, a saudade continua saudade, lembrando de coisas que hoje eu sei que talvez sejam inclassificáveis nas minhas pobres categorias, o medo então... continua tão medo como nunca, mas (quase) sem classificações, o medo agora  parece permitir o frio na barriga que as possibilidades diante do desconhecido (ou do conhecido) provocam...

Talvez esteja só sonhando sabe? (Ando tomando uns relaxantes musculares dos deuses... [rs], ah e um certo floral meio mágico feito com muito carinho né!?). Mas talvez sabe lá porque, as coisas, apesar de ainda complicadas, se tornaram mais simples, mais claras e mais vivas. E o mais engraçado é que acho que nunca estive tão perdida como agora. Mas uma grande amiga de quem eu gosto muito, uma vez me disse essa frase da Clarice, que perder-se também é caminho, e não me passa pela cabeça caminho melhor, do que estar perdida agora.

'Estou de alma lavada
Não chove mais na minha estrada
Seu olhar já me chamou
Eu vou
Caminho pro interior'

Caminho pro interior

20 junho, 2010

Desejar o Desejo



Desejar o Desejo [1]

Por Marcia Tiburi

Costumamos querer sem saber o que queremos, costumamos falar de desejo sem saber o que ele significa. Fala-se tanto em desejo que ficamos confusos com seu sentido. Arthur Schopenhauer, no século XIX, pensava que o desejo era o motor do sofrimento. Desejar resultava em ser infeliz. O filósofo tinha certa razão, pois o desejo não vem com o equilíbrio como brinde. E a pergunta, a princípio ingênua, “o desejo é afinal bom ou ruim?” não nos abandona.

Apesar da relação entre desejo e excesso, à sensação de aventura impressionante que uma possível “descoberta” do desejo nos convida, nos tornamos temerosos do desejo. Todavia, permanecemos desejando. Se não estamos às voltas à procura de nosso desejo por conta própria, sempre há quem esteja por perto dizendo que temos que encontra-lo e que isto será uma revolução pessoal.

Há quem fale da diferença entre querer e desejar, uns afirmando que o querer é racional e consciente e o desejo é irracional e inconsciente. É uma boa distinção. De qualquer modo, mesmo confusos, sabemos que o desejo sempre nos põe diante de um abismo que apenas com paciência e atenção somos capazes de atravessar em nosso dia a dia. Este abismo é o outro. É visando-o que descobrimos o que ele realmente é.

Estamos orientados a sempre desejar alguma coisa em relação ao outro, seja ele algo, uma pessoa, a sociedade ou o futuro. Quando desejamos o desejo, a vida vai bem. Nos movemos atentos à beleza, à tragédia, ao sublime da existência e tudo pode ser interessante e motivo de alegria. Baruch Spinoza, no século XVII, falava do desejo como uma espécie de impulso para a vida. A sua melhor qualidade era a produção da alegria como afeto saudável que nos fazia encontrar o outro como dádiva, luz, maravilha.

Para além da felicidade que advém do mero desejar o desejo, desejamos algo diferente dele. Às vezes desejamos as coisas e, como não conquistamos tudo o que queremos, sofremos. Quando desejamos pessoas podemos sofrer mais ainda, já que ao desejar outra pessoa que deseja como nós, nos deparamos com o obstáculo do seu próprio desejo que pode ser avesso ao nosso e nos rejeitar.

Muitas vezes, mesmo desejando alguém e tendo a sorte de uma amizade ou um amor correspondido pomos tudo a perder. Se não desejamos o que o outro é, acabamos por nossa própria conta que ele deveria ser. Mas quem teria este direito de desejar por nós?

Como alguém deveria ser

Não se trata apenas de desejar algo que o outro “deveria” nos dar e chorar porque não fomos contemplados, ou assumir com dignidade a frustração, mas de desejar o modo como alguém “deveria ser”. É como se o outro não fosse o que é, devendo sempre ser diferente para agradar o gosto do seu crítico de plantão. Tornamo-nos críticos exímios socialmente na arte de falar mal, de apontar defeitos, de querer, afinal, que o outro seja como queremos que ele seja. Nunca o que ele é. E se nos casamos com este outro, ou nos tornamos pais, ou precisamos conviver no trabalho?

Em casa, no trabalho, na escola, na empresa, esta postura carrega um gesto de desamor que, em graus variados, pode chegar ao ódio e à intolerância que são o extremo da falta de capacidade de dialogar ou de, simplesmente, deixar que o outro seja o que ele é, a seu modo. Mas e como “eu” deveria ser? Será que esta pergunta teria consistência?

Muitas vezes exigimos das pessoas atitudes e comportamentos que nós mesmos não temos, mas que supomos nossa característica mais essencial. Perguntados, entretanto, nem sempre podemos afirmar com precisão onde, como e quando tais características se manifestam em nós. Qual será a função desta exigência? Se critico o outro por sua preguiça é por que, ao contrário, eu sou trabalhador e esforçado? Se o critico por ignorância, eu sou sábio? Se o critico em sua antipatia, sou eu o simpático? Se o critico por falta de ética, eu sou ético? Falando do outro eu sempre me convenço de que sou melhor do que ele ou, antes, por me considerar perfeito já afirmo minha competência na crítica. Mas, sobretudo, acoberto a chance de que eu esteja na berlinda, sendo o alvo.

Nossos comportamentos geram valores. Não são apenas o fruto de valores preexistentes, mas nós mesmos construímos as bases a partir das quais agimos em nosso futuro e interferimos, sobretudo, no modo de ser de outras pessoas. Este modo de ser leva à decisões e ações mais ou menos livres que moldam a totalidade da vida.

A liberdade do outro é o começo da minha

Nossa sociedade costuma demonstrar seus valores cultuando-os. Este culto mostra duas coisas: que temos uma imensa capacidade de amar símbolos, pessoas ou coisas, e que, justamente por isso, também somos capazes de muita ilusão.

Quando desejamos ilusões não atingimos a profundidade do nosso desejo. Não devemos apenas pensar nas falsas necessidades que fazem operar nosso desejo, as inventadas pela sociedade em seu modo de produção atual. Devemos pensar nos valores que impomos a quem não é como nós somos e que compõem nosso desejo. A atenção crítica a si mesmo e ao outro precisa de óculos cuja lente seja a liberdade de ser que é direito de cada um. A liberdade do outro é onde inicia a minha.

[1] Publicado em Vida Simples em 2008.