06 junho, 2010

Dia dos namorados



(Image by Charles Gullung)

Esta é a semana dos namorados, mas não vou falar sobre ursinhos de pelúcia nem sobre bombons. É o momento ideal pra falar de sacanagem.

Se dei a impressão de que o assunto será ménage à trois, sexo selvagem e práticas perversas, sinto muito desiludí-lo. Pretendo, sim, é falar das sacanagens que fizeram com a gente.

Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos. Não contaram pra nós que amor não é racionado nem chega com hora marcada.

Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais rápido.

Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada "dois em um", duas pessoas pensando igual, agindo igual, que isso era que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável.

Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos. Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto. Ninguém nos disse que chinelos velhos também têm seu valor, já que não nos machucam, e que existe mais cabeças tortas do que pés.

Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que poderíamos tentar outras alternativas menos convencionais.

Sexo não é sacanagem. Sexo é uma coisa natural, simples – só é ruim quando feito sem vontade. Sacanagem é outra coisa. É nos condicionarem a um amor cheio de regras e princípios, sem ter o direito à leveza e ao prazer que nos proporcionam as coisas escolhidas por nós mesmos.

Martha Medeiros

05 junho, 2010

O jeito deles



(Imagem by Dylan Collard)


(Imagem by Dylan Collard)


(Imagem by Dylan Collard)

O que é que faz a gente se apaixonar por alguém? Mistério misterioso. Não é só porque ele é esportista, não é só porque ela é linda, pois há esportistas sem cérebro e lindas idem, e você, que tem um, não vai querer saber de descerebrados.

Mas também não basta ser inteligente, por mais que a inteligência esteja bem cotada no mercado. Tem que ser inteligente e... algo mais. O que é este algo mais?

Mistério decifrado: é o jeito.

A gente se apaixona pelo jeito da pessoa. Não é porque ele cita Camões, não é porque ela tem olhos azuis: é o jeito dele de dizer versos em voz alta como se ele mesmo os tivesse escrito pra nós; é o jeito dela de piscar demorado seus lindos olhos azuis, como se estivesse em câmera lenta.

O jeito de caminhar. O jeito de usar a camisa pra fora das calças. O jeito de passar a mão no cabelo. O jeito de suspirar no final das frases. O jeito de beijar. O jeito de sorrir. Vá tentar explicar isso.

Pelo meu primeiro namorado, me apaixonei porque ele tinha um jeito de estar nas festas parecendo que não estava, era como se só eu o estivesse enxergando.

O segundo namorado me fisgou porque tinha um jeito de morder palitos de fósforo que me deixava louca ok, pode rir. Ele era um cara sofisticado, e por isso mesmo eu vibrava quando baixava nele um caminhoneiro.

O terceiro namorado tinha um jeito de olhar que parecia que despia a gente: não as roupas da gente, mas a alma da gente. Logo vi que eu jamais conseguiria esconder algum segredo dele, era como se ele me conhecesse antes mesmo de eu nascer. Por precaução, resolvi casar com o sujeito e mantê-lo por perto.

E teve aqueles que não viraram namorados também por causa do jeito: do jeito vulgar de falar, do jeito de rir sempre alto demais e por coisas totalmente sem graça, do jeito rude de tratar os garçons, do jeito mauricinho de se vestir: nunca um desleixo, sempre engomado e perfumado, até na beira da praia. Nenhum defeito nisso. Pode até ser que eu tenha perdido os caras mais sensacionais do universo.

Mas o cara mais sensacional do universo e a mulher mais fantástica do planeta nunca irão conquistar você, a não ser que tenham um jeito de ser que você não consiga explicar.

Porque esses jeitos que nos encantam não se explicam mesmo.

Martha Medeiros

03 junho, 2010

As piores hipóteses...



(Image by Sot)

Estava lendo essa crônica da Martha que fala justamente sobre as falhas. As nossas falhas, e o quanto elas nos humanizam...

E não pude evitar pensar nas minhas! Ah caramba, são tantas! Já começa por aí! Mania de pensar sempre no pior lado das coisas e nas piores hipóteses!

Já se perguntou por que temos (olha eu querendo socializar a minha falha supondo que seja a sua também!) a tendência maluca de sempre pensar nas piores hipóteses. Sejam elas quais forem, sobre qual assunto for?!

Previsão do tempo, amor, amigos, viagens, faculdade, trabalho! É o tempo que pode piorar mesmo quando o sol está rachando lá fora (mas, vamos combinar que às vezes acertamos mais que a previsão do tempo?!), é aquele trabalho que a gente ralou absurdo pra fazer e tem certeza que não ficou bom, aquele lugar que a gente deixa de ir porque tem certeza que não estará legal, aquele cara super interessante que a gente tem certeza que não vai dar em nada, aquela viagem que embora pareça super interessante... Ah tanta coisa pode dar errado!

Coisa de maluco isso. Talvez não. Prefiro pensar que talvez seja algo “às vezes” inevitável. Bom, no meu caso tenho que admitir que mesmo lutando contra a minha essência sagitariana, controladora, com mania de querer adivinhar desde a previsão do tempo até o que as pessoas nunca sonharam em dizer, a parte controladora tem ganhado. Vários pontos a zero por enquanto. Fico me perguntando em que momento aprendemos que ser assim seria mais seguro?! Ah, claro, quanto menor a imaginação, menor o tombo! Já era!

Digamos que tenho outras falhas... (e como tenho!) Ansiedade, pressa, insegurança, imaginação fértil demais (ok, essa pode ser uma qualidade às vezes, certo?), medo de coisas novas, falo demais (principalmente quando fico nervosa) e sempre fico pensando que se Deus (ou alguém, sei-lá) nos deu o pensamento, nem tudo precisaria ser dito, mas... Acho que talvez o que mais me “pegue” seja essa mania de viver entre a guerra eterna do “tudo sempre pode piorar” versus “do chão não passa”. Não que a metade do meu copo esteja sempre vazia... Claro que às vezes bem aproveito a metade cheia de sorvete, milk shake de ovomaltine, fanta uva, enfim!

Lição de feriado sobre as falhas: além de nos humanizar é o que nos identifica, particulariza, diferencia! Agora se fascina...??? Aí deixo pra pensarmos num momento menos “tudo pode piorar”!

Até porque se todo carnaval tem seu fim... Pra que se preocupar?

Los Hermanos
Composição: Marcelo Camelo

Todo dia um ninguém josé acorda já deitado
Todo dia ainda de pé o zé dorme acordado
Todo dia o dia não quer raiar o sol do dia
Toda trilha é andada com a fé de quem crê no ditado
De que o dia insiste em nascer
Mas o dia insiste em nascer
Pra ver deitar o novo

Toda rosa é rosa porque assim ela é chamada
Toda Bossa é nova e você não liga se é usada
Todo o carnaval tem seu fim
Todo o carnaval tem seu fim
E é o fim, e é o fim

Deixa eu brincar de ser feliz,
Deixa eu pintar o meu nariz

Toda banda tem um tarol, quem sabe eu não toco
Todo samba tem um refrão pra levantar o bloco
Toda escolha é feita por quem acorda já deitado

Toda folha elege um alguém que mora logo ao lado
E pinta o estandarte de azul
E põe suas estrelas no azul
Pra que mudar?

Deixa eu brincar de ser feliz,
Deixa eu pintar o meu nariz

Falhas



(Golden Gate, São Francisco)

Uma das coisas que fascina na cidade de San Francisco é ela estar localizada sobre a falha de San Andreas, que é um desnível no terreno da região que provoca pequenos abalos sísmicos de vez em quando, e grandes terremotos de tempos em tempos.

Você está deslumbrado, caminhando pela cidade, apreciando a arquitetura vitoriana, a baía, a famosa Golden Gate e, de uma hora para outra, pode perder o chão. Ver tudo sair do lugar, ficar tontinho, tontinho. É pouco provável que vá acontecer justo quando você estiver lá, mas existe a possibilidade.

Assim são também as pessoas interessantes: têm falhas. Pessoas perfeitas são como Viena, uma cidade quase perfeita. Linda, sem fraturas geológicas, onde tudo funciona e você fica com tédio.

Pessoas, como cidades, não precisam ser excessivamente bonitas. É fundamental que tenham sinais de expressão no rosto, um nariz com personalidade, um vinco na testa que as caracterize.

Pessoas, como cidades, precisam ser limpas, mas é importante suar na hora do cansaço. Também o é ter um cheiro próprio, uma camiseta velha para dormir, um jeans quase transparente de tanto que foi usado, um batom que escapou dos lábios depois de um beijo, um rímel que borrou um pouquinho quando você chorou. Pessoas, como cidades, têm que funcionar, mas não podem ser previsíveis.

De vez em quando, sem abusar muito da licença, devem ser insensatas, ligeiramente passionais. Devem demonstrar um certo desatino, ir contra alguns prognósticos, cometer erros de julgamento e pedir perdão depois.

Aliás, pedir perdão sempre, Pessoas, como cidades, devem dar vontade de visitar, devem satisfazer nossa necessidade de viver momentos sublimes, devem ser calorosas, ser generosas e abrir suas portas. Devem nos fazer querer voltar, porém não devem nos deixar 100% seguros, nunca. Uma pequena dose de apreensão e cuidado devem provocar. Nunca devem deixar os outros esquecerem que pessoas, assim como cidades, têm rachaduras internas.

Portanto, podem surpreender.

Falhas. Agradeça as suas, que é o que humaniza você, e nos fascina.
 
Martha Medeiros

31 maio, 2010

Viver...



(Image by Darla Winn)

temos, todos que vivemos,
uma vida que é vivida
e outra vida que é pensada,
e a única vida que temos
é esta que é dividida
entre a verdadeira e a errada.

Fernando Pessoa

Obs.: Tá vendo porque tenho medo da minha imaginação?