04 maio, 2010

Eu lembro...



(Image by D. Sharon Pruitt Pink Sherbet Photography)

Eu lembro de uma garota que adorava andar descalça, mas que nunca se esqueceu de quando cortou o pé num caco de vidro, lembra vô?

Uma garota que amava a companhia do seu avô, eita cara especial, dele eu sinto saudades... uma garota que também se sentia estranha na sala de aula, mas que a profesora Vanderli ajudou a se sentir um pouco menos fora do ninho.Lembro de uma garota que não gostava de educação física, e gostava menos ainda de ficar fingindo jogar xadrez ao invés de "se jogar" na quadra.

Lembro de uma garota que viu os pais se separando e nem imaginava o universo novo que isso traria... uma casa nova, um bairro novo, amigos novos. Os primeiros amigos de rua... noites e noites sentada na calçada, jogando conversa fora, brincando de garrafa envenenada, será que alguém já brincou disso?

Uma garota que sempre teve problemas com decisões... pra não dizer uma garota indecisa. Lembro de uma garota que deu seu primeiro beijo num dia completamente inesperado (talvez como todo mundo). Que na verdade teve bem menos de magia do que as colegas pintavam... mas depois se sentiu normal... e é claro o primeiro beijo com magia...

E lembro do primeiro convite pro cinema dessa garota, a primeira desilusão... e as primeiras noites de choro, as cartas que não foram entregues, os diários companheiros... e nem tanto às vezes... pensar e esquecer às vezes é bem melhor do que eternizar na escrita...

Lembro de uma garota que terminou o ensino médio e sentiu um enorme vazio. Preenchido com amigos e cursinho... e mais uma pitada de indecisão claro. Lembro de uma garota que fez cursinho sem nem saber o que queria fazer na faculdade... Terminou o ano, não prestou nenhum vestibular e deixou a sua mãe maluca com isso! Até que de paraquedas caiu na pedagogia. Lembro de uma garota se sentindo um ET na faculdade, e depois encontrando seu espaço... lembro das amizades, essas não vou esquecer nunca (CAPagú! Lembram?), das brigas, das festas que nem foram tantas, mas foram significativas... Lembro de um ex-namorado com quem essa garota dividiu muitas coisas nesse percurso, alguém com quem essa garota cresceu muito...

Lembro de uma garota que foi selecionada para um intercâmbio e nem imaginava como 7 meses poderiam lhe mudar tanto! Uma garota que aprendeu que é forte sozinha, que se garante independente do lugar, da situação, do tempo... e que caso fraqueje em algum momento (o que é perfeitamente possível e aceitável pra ela hoje) sabe também que se levanta no momento seguinte. Lembro de uma garota que sempre gostou de chuva... do tempo de chuva, do cheiro da chuva, do vento de chuva e que até hoje quando está chegando em casa do trabalho e vê o tempo fechar sente a mesma paz que sentia há tempos...

Não sei dizer se sinto saudades de mim ontem, de tudo que vivi (indecisa, lembra?!), acho que não sinto... mas de qualquer forma não voltaria nem pra corrigir nada, nem pra mudar nada, nem pra viver nada de novo. Mas posso dizer que estou muito feliz comigo hoje. Tenho medo do futuro... mas quero O NOVO, seja lá que lembranças esse novo deixe...

Saudade nenhuma de mim



(Martha Medeiros)

Volta e meia, crônicas, romances e poemas terminam com a indefectível frase: "Saudades de mim". Será que eu já escrevi isso alguma vez, que sinto saudades de mim? Devo ter cometido, eu também, esta dramatização barata, somos todos reincidentes nos clichês. Mas, olha, sinceramente, não sinto, não.

Lembro de uma menina que se sentia uma estranha na sala de aula. Que adorava tomar lanche nas Lojas Americanas do centro da cidade. Que ficava esperando ser tirada pra dançar nas reuniões dançantes, e quando acontecia, que êxtase! Na vez em que foi tirada pelo garoto de quem ela era a fim (e ele a apertou mais do que os bons modos permitiam), os pais da menina chegaram justo naquela hora para buscá-la, sua primeira grande frustração. Lembro do primeiro beijo da menina, ela completamente nervosa. Lembro da menina já grande, em seu primeiro estágio, iniciando vida profissional. Lembro da menina agindo como adulta, indo morar fora do país. Lembro da menina voltando, sem resquícios da menina que havia sido. Saudades dela? Afeto por ela. Saudades eu tenho de nada.

Não voltaria um único dia na minha vida, e lembranças boas é o que não me faltam. Não voltaria à infância - mesmo nunca mais tendo sentido tanto orgulho de mim quanto senti no dia em que ganhei minha primeira bicicleta sem rodinhas auxiliares, aos 6 anos, e saí pedalando sem ajuda, já no primeiro minuto, sem quedas no currículo. Não voltaria à adolescência, quando fiz minhas primeiras viagens sozinha com as amigas e aprendi um pouquinho mais sobre quem eu era - e sobre quem eu não era.

Não voltaria ao dia em que minhas filhas nasceram, que foram os dias mais felizes da minha vida, de uma felicidade inédita porque dali por diante haveria alguma mutilação na liberdade que eu tanto prezava - mas, por outro lado, experimentaria um amor que eu nem sonhava que podia ser tão intenso.

Não voltaria ao dia de ontem - e ontem eu era mais jovem do que hoje, ontem eu era mais romântica do que hoje, ontem eu nem tinha pensado em escrever esta crônica, ontem faz mil anos. Não tenho saudades de mim com menos celulite, não tenho saudades de mim mais sonhadora. Não voltaria no tempo para consertar meus erros, não voltaria para a inocência que eu tinha - e tenho ainda. Terei saudades da ingenuidade que nunca perdi? Não tenho saudades nem de um minuto atrás. Tudo o que eu fui prossegue em mim.


Martha Medeiros